A obra infantil de Monteiro Lobato
Curiosidades e trajetórias dos livros do autor brasileiro mais importante na literatura voltada aos pequenos leitores
"O mundo das maravilhas é velhíssimo. Começou a existir quando nasceu a primeira criança e há de existir enquanto houver um velho sobre a terra".Em sua vasta obra infantil, composta de 23 títulos, Monteiro Lobato confirma sua célebre frase de 'Reinações de Narizinho', clássico que introduz ao público famosos personagens como Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, os brinquedos vivos Emília e Visconde de Sabugosa, dentre outros saídos da rica imaginação do autor paulista.

As obras de Lobato servem até hoje de inspiração para diversos autores infantis, além de seguir encantando crianças e adultos com suas histórias cheias de criatividade e bom humor. Não é a toa que o 'Sítio do Picapau Amarelo' tornou-se tão marcante no imaginário brasileiro, se disseminando em mídias variadas e firmando-se como um dos nossos maiores clássicos. É em vista disso que o 'Sobre Arte', dessa vez, resolveu falar sobre Monteiro Lobato.
"Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar"

Um fato curioso acerca do autor foi quando Emílio Moura reuniu os alunos de um grupo escolar de BH e apresentou-os á Monteiro Lobato. As crianças não queriam acreditar que aquele, ali na frente delas, podia ser Lobato. "Então o senhor pensa que nós acreditamos? O homem que escreveu Narizinho não pode estar aqui!" A ideia de que um homem de carne e osso, como tantos outros, pudesse escrever histórias infantis tão mágicas não podia ser real. O escritor conta que ficou emocionado diante daquela reação. "Nunca pensei que fosse tão séria a influência do que escrevo. Até agora ia escrevendo... por escrever... mas essa meninada me deu uma lição. Vou pensar muito antes de escrever daqui por diante".
Críticas
O tom de crítica das obras lobatianas também era algo que chamava atenção. Muitos políticos brasileiros da época chegaram a afirmar que seu trabalho era "antipatriota", e que o autor foi "indelicado" ao falar mal do governo para crianças. Lobato respondeu que "era importante", para ele, "transmitir o seu espírito crítico através de suas histórias, e que "as pessoas estavam habituadas a mentir para seus filhos, dizendo que o Brasil era um país realmente maravilhoso". Durante a vida, Lobato foi bastante incompreendido por pais e educadores, e seus livros chegaram a ser inclusive queimados no pátio de uma escola.
Cecília Meireles também pensava que os livros do autor "estavam em desacordo com o moderno espírito de educação". Para ela, as histórias lobatianas eram engraçadas, mas seus personagens eram completamente detestáveis.O Sítio em outros países
Desde os anos quarenta, os livros de Monteiro são traduzidos para outros países, como Alemanha e Itália, por exemplo. Mas as traduções para o exterior da obra lobatiana ganharam ainda mais força com o desenho animado 'Sítio do Picapau Amarelo', de 2012, que, levado para diversos países, fez os livros chegarem ao Japão, Rússia, entre outros. Quase 100 anos
Em Dezembro de 2020, a obra infantil completa cem anos. No natal de 1920, Lobato deixou o melhor presente que as crianças daquele tempo poderiam sonhar: um livro infantil ilustrado, com uma história propriamente brasileira. Antes de 'A Menina do Narizinho Arrebitado', os livros infantis no Brasil eram sempre adaptados de clássicos estrangeiros, ou apanhados da cultura popular do país. Em 1931, Lobato integrou 'A Menina' no livro 'Reinações de Narizinho', sendo essa sua obra-prima, segundo críticos.
Os livros do 'Sítio' já viraram filme ('O Saci', de 1951, e 'O Picapau Amarelo'), série de TV (Na extinta TV Tupi, na TV Cultura, Bandeirantes e, duas vezes, na Rede Globo), desenho animado, revista em quadrinhos e muito mais. O segredo para tanto sucesso talvez esteja na liberdade que o autor proporciona ás crianças através da leitura de seus livros. Antes de Lobato, os pais falavam e os filhos obedeciam, sem dar um só pio. Foi ele quem ensinou que todos podem ter vez e voz. As histórias cheias de fantasia e criatividade, além de seu brasileirismo imenso, também foram responsáveis por tamanha dimensão. Sem falar que seus livros, todos eles, são como verdadeiros retratos da infância. Comer jabuticabas e fazer ploft, pluft, nhoc!, largatear ao sol, brincar de "faz-de-conta"... Não há criança que não se veja descrita ali. 

É em vista disso que o 'Sobre Arte' resolveu fazer uma lista com principais autores e histórias, narrando suas curiosidades e trajetórias. Você sabia, por exemplo, que 'Cachinhos Dourados e os Três Ursos' teve acontecimentos baseados na história de Branca de Neve em sua versão mais conhecida? E que Bela Adormecida já foi Rosa de Urze? Então, vamos lá!
Hans Cristhian Andersen inovou ao inventar seus próprios contos de fadas, ao invés de resgatar histórias orais. São dele 'O Patinho Feio', 'A Pequena Sereia', 'A Pequena Vendedora de Fósforos' e outros. Suas histórias com finais muitas vezes tristes incomodavam alguns, que estavam já acostumados com o "e foram felizes para sempre" dos outros contos de fadas. Nem por isso o encanto que seus contos causavam era menor. Hoje, por exemplo, temos uma espécie de Nobel da Literatura Infantil chamado 'Prêmio Hans Cristhian Andersen', devido á sua grande importância na literatura voltada aos pequenos leitores. 

Difícil ouvir o termo 'estrela mirim do cinema' e não se lembrar de Shirley Temple (1928-2014), a garotinha que conquistou o mundo inteiro nos anos 30 e 40 ao estrelar filmes como 'Olhos Brilhantes', 'A Pequena Órfã', 'Pobre Menina Rica', entre outros. 'Desde que nosso país tenha Shirley Temple, nós vamos ficar bem' - declarou o presidente do Estados Unidos, Franklin Roosevelt, numa época que reinava no mundo a chamada 'Grande Depressão'. Ainda disse Roosevelt: "Durante essa Depressão, quando o espírito do povo está mais triste do que em qualquer outro momento, é uma coisa magnífica que por apenas 15 centavos , um americano pode ir ao cinema e olhar para o rosto sorridente de uma criança e esquecer de seus problemas", agradecendo a pequena estrela "por ter feito a América atravessar a Grande Depressão com um sorriso".
Não, não estamos falando da versão estrelada por Shirley Temple. Apesar de ser um grande clássico, não chegamos a assistir. A versão de 'A Princesinha' em questão é a de 1995, protagonizada pela carismática e talentosa atriz Liesel Matthews. 'A Princesinha' é baseado no livro infantil de mesmo nome escrito pela escritora inglesa Frances Hodgson Burnett, também autora de títulos como 'O Jardim Secreto' e 'O Pequeno Lorde'. Com alguns pontos da história bem diferentes do livro, o longa não deixa de ser mágico. Sara Crewe (Liesel Mattew) é uma menina de 11 anos que descobre o lado sombrio da vida, e como tudo pode ser transformado pelo 'faz de conta'. Vale a pena assistir.
Lindo, envolvente, atemporal. É assim que pode ser descrito o filme 'O Jardim Secreto', outro clássico da 'Sessão da Tarde'. Mary Lenox (Kate Maberly) é uma menina, que como ela mesma se descreve, não sabe chorar. Ao ir morar com seu tio, o misterioso Lorde Craven (John Lynch), em seu sombrio casarão de mais de cem quatros, em frente á charneca. É lá que Mary descobre o Jardim Secreto, e a magia começa acontecer. Assim como 'A Princesinha', o clássico também é baseado na obra de Frances Hodgson Burnett.